Aspirina já foi considerada um remédio milagroso para evitar o primeiro infarto ou AVC. Mas hoje, a ciência diz algo bem diferente: para muitas pessoas, tomar aspirina todos os dias pode ser mais perigoso do que útil. Se você nunca teve um problema cardíaco, mas toma aspirina por precaução, é hora de repensar.
Por que a recomendação mudou tanto?
No passado, estudos como o Physicians' Health Study (1988) mostraram que a aspirina reduzia ligeiramente o risco de infarto em homens saudáveis. Isso levou médicos a recomendar o uso diário de 75 a 100 mg para milhões de adultos, especialmente após os 50 anos. Mas esses estudos não mediam os riscos de sangramento - e isso foi um erro grave.
Em 2022, a U.S. Preventive Services Task Force (USPSTF) reviu todas as evidências e concluiu: para adultos com 60 anos ou mais, os danos superam os benefícios. O número de pessoas que sofrem um sangramento grave por causa da aspirina é quase igual ao número de infartos que ela evita. Em pessoas mais velhas, isso vira um empate perigoso: você não ganha nada, mas corre risco real de sangramento no estômago, no cérebro ou nos intestinos.
Quem NÃO deve tomar aspirina diariamente?
- Adultos com 60 anos ou mais - mesmo que tenham pressão alta ou colesterol elevado. O risco de sangramento aumenta com a idade, e a aspirina não protege mais o coração nessa faixa.
- Pessoas com histórico de úlceras estomacais - cerca de 4% dos adultos nos EUA já tiveram isso. A aspirina irrita o revestimento do estômago e pode causar sangramento interno.
- Quem usa outros anti-inflamatórios - como ibuprofeno ou naproxeno. Juntos, eles aumentam o risco de sangramento gastrointestinal em até 70%.
- Pessoas que tomam anticoagulantes - como varfarina, rivaroxabana ou apixabana. Misturar com aspirina é como acender um fósforo perto de gasolina.
- Idosos com risco elevado de queda - mesmo um pequeno tombo pode levar a hemorragia cerebral se você estiver tomando aspirina.
Um estudo da NHANES mostrou que, entre adultos de 60 a 79 anos, o uso diário de aspirina caiu de 31,7% em 2017 para apenas 17,3% em 2022. Isso não foi por acaso. Foi uma mudança baseada em dados reais.
Quem ainda pode considerar a aspirina?
Não é tudo ou nada. Há um grupo pequeno, mas importante, que ainda pode se beneficiar: adultos entre 40 e 59 anos com alto risco de doença cardíaca e baixo risco de sangramento.
Como saber se você está nesse grupo? O médico precisa calcular seu risco de doença cardiovascular nos próximos 10 anos. Para isso, usa-se a Pooled Cohort Equations - uma fórmula que leva em conta idade, pressão arterial, colesterol, diabetes e se você fuma. Se o resultado for 10% ou mais, a aspirina pode ser discutida.
Mas atenção: mesmo nesse grupo, a decisão não é automática. Um estudo de 2023 mostrou que, entre pessoas com pontuação de cálcio coronariano (CAC) acima de 300, a aspirina reduziu infartos em até 19%. Mas se o CAC for zero, não há benefício algum. Isso significa que o exame de cálcio no coração - um simples raio-X - pode ser mais útil do que qualquer palpite clínico.
Os riscos são reais - e mais comuns do que você pensa
Um estudo com 1.247 pacientes que tomavam aspirina para prevenção primária mostrou que 68% relataram problemas estomacais: dor, azia, náuseas. Um em cada cinco teve que parar por causa disso.
Os riscos mais graves são:
- Sangramento gastrointestinal - 43% mais provável com aspirina.
- Hemorragia cerebral - 38% mais provável.
- Internação por sangramento - custa em média US$ 1.200 por episódio, segundo dados do Medicare.
Em termos práticos: para cada 1.000 pessoas que tomam aspirina por 10 anos, 1,6 terão um sangramento grave. E apenas 0,9 evitarão um infarto. Ou seja, você tem mais chances de ser prejudicado do que ajudado.
Por que tantos ainda continuam tomando?
Por medo. Muitos pacientes dizem: "Se eu parar, talvez eu tenha um infarto amanhã." É uma preocupação compreensível - mas baseada em uma ideia errada.
A aspirina só previne o primeiro evento. Se você já teve um infarto, um stent ou uma cirurgia de ponte de safena, ela continua sendo essencial. Isso é prevenção secundária. Mas se você nunca teve nada, é prevenção primária - e aí o jogo muda.
Uma pesquisa da Mayo Clinic com 1.500 pacientes mostrou que 41% dos adultos com 60+ continuam tomando aspirina mesmo depois das novas orientações. A principal razão? "Meu médico nunca me disse para parar."
Outro problema: médicos dão conselhos diferentes. Cardiologistas são mais propensos a manter a aspirina em pacientes de risco elevado. Médicos de família, por outro lado, seguem mais de perto as diretrizes. Isso gera confusão. Em um estudo da JAMA Internal Medicine, 57% dos pacientes disseram que tinham recebido orientações contraditórias.
O que fazer agora?
Se você está tomando aspirina diariamente e nunca teve doença cardíaca:
- Não pare de um dia para o outro. Pode causar efeito rebote. Consulte seu médico.
- Pergunte: "Meu risco de doença cardíaca é maior que 10% nos próximos 10 anos?"
- Pergunte: "Tenho algum fator de risco para sangramento?" (úlcera, uso de outros remédios, idade, queda).
- Pergunte: "Já fiz o exame de cálcio coronariano?"
- Se você tem diabetes e está entre 40 e 70 anos, com risco acima de 15%, pode ser um caso especial - mas ainda assim, só se o sangramento for baixo.
Se seu médico não mencionou esses pontos, é sinal de que a avaliação não foi completa. A recomendação atual não é "nunca use" - é "use só se o benefício for claro e o risco for mínimo".
Alternativas reais para proteger seu coração
Se você quer evitar um infarto, existem coisas muito mais eficazes - e seguras - do que a aspirina:
- Controle da pressão arterial - manter abaixo de 120/80 mmHg reduz o risco de AVC em até 40%.
- Redução do colesterol LDL - com estatinas, se necessário. Elas reduzem infartos em 25-30%, muito mais que a aspirina.
- Atividade física - 150 minutos por semana de caminhada rápida diminuem o risco cardíaco em até 35%.
- Não fumar - o maior fator de risco modificável.
- Dieta mediterrânea - rica em azeite, peixes, nozes e vegetais, reduz o risco em até 30%.
Essas mudanças não têm efeitos colaterais. Não causam sangramento. Não custam dinheiro. E funcionam melhor do que qualquer pílula.
O que o futuro traz?
Estudos como o ASPRIN (em andamento desde 2023) estão tentando descobrir se pessoas com alta carga de cálcio no coração - mesmo sem sintomas - se beneficiam da aspirina. Os resultados saem em 2028.
Outra fronteira: testes genéticos para ver se seu corpo responde bem à aspirina. Alguns têm variantes que tornam o medicamento inútil - e ainda assim, tomam por anos. Em cinco anos, isso pode ser rotina.
Por enquanto, o que vale é o básico: não use aspirina por hábito. Use só se for realmente necessário. E nunca, nunca, tome sem conversar com seu médico sobre seus riscos reais - não os que você imagina, mas os que os dados mostram.
Posso continuar tomando aspirina se meu médico já me receitou?
Sim, mas só se você já foi avaliado de forma completa. Se você tem mais de 60 anos, não tem diabetes e nunca fez exames de risco cardíaco, provavelmente deve parar. Se você tem risco elevado de infarto (como CAC > 300) e nenhum fator de sangramento, pode manter - mas isso precisa ser discutido e documentado. Nunca continue por inércia.
A aspirina ajuda a prevenir câncer? Posso usá-la por isso?
Estudos sugerem que a aspirina pode reduzir levemente o risco de câncer colorretal, mas isso leva anos para acontecer. Os riscos de sangramento são imediatos e reais. Nenhuma sociedade médica recomenda aspirina para prevenção de câncer. Existem métodos muito melhores, como colonoscopia a partir dos 45 anos.
E se eu tiver diabetes? Ainda devo tomar?
A nova diretriz da AHA/ACC (2025) diz que, se você tem diabetes entre 40 e 70 anos, e seu risco de doença cardíaca é de 15% ou mais nos próximos 10 anos, e você não tem risco de sangramento, a aspirina pode ser considerada. Mas isso é uma recomendação fraca - "pode ser considerada", não "recomendada". Muitos médicos ainda evitam. O controle da glicemia, pressão e colesterol é muito mais importante.
Qual é a dose certa se eu for um dos poucos que deve tomar?
A dose eficaz e segura é entre 75 e 100 mg por dia. Doses maiores (como 325 mg) não dão mais proteção - só aumentam o risco de sangramento. Nunca use aspirina de farmácia comum (500 mg ou 81 mg) sem confirmação médica. A aspirina de baixa dose é específica e deve ser prescrita.
E se eu parar, vou ter um infarto?
Não. Se você nunca teve doença cardíaca, a aspirina não estava te protegendo - estava apenas aumentando seu risco de sangramento. Parar não aumenta seu risco cardíaco. O que aumenta o risco é não controlar pressão, colesterol, não fazer exercício e continuar fumando. A aspirina nunca foi o principal escudo - e nunca foi tão importante quanto acreditamos.